Escrevinhanças

terça-feira, 14 de julho de 2015

Separou.

E dentre todas, a perda que mais latejava era a do muro mágico, invisível, do casamento, que certamente a cerceava, mas também a protegia.

Entrou no quarto de hospital e viu a amiga deitada na cama, a face denunciando a recente cirurgia. O marido, os parentes, os amigos, todos em volta, preocupados,
a bancada cheia de flores e chocolates
o zum zum de conversas sobre a cirurgia, sobre quem ia casar, quem ia ter bebê, quem viajou...
O muro mágico e invisível da amiga...

... e se sentiu penetra...

Era como se ela, diabética de amor e carinho, entrasse numa confeitaria e visse tudo aquilo que desejava... mas não podia comer.
Não podia se nutrir de todo aquele açúcar, de todo aquele afeto, de toda aquela proteção.

E mais uma vez se sentiu sem bordas, sem contenção,
com os contornos de seu corpo e de sua alma se esfumaçando,

perdendo a definição do propósito de sua vida diabética.

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