1994
Foi o ano em
que supostamente a ficha dela deveria cair.
Em junho ou
julho ele comprou um Jeep. No fundo de sua cabecinha tola e ingênua, uma
luzinha vermelha de alerta se acendeu, mas ela não deu muita bola. Assim como
nos 24 anos de casada não quis admitir que ele não a amava genuinamente.
Vou
explicar. Ele amava o papel e a função que ela representava, aliás muito bem.
Era a
perfeita dona de casa, a mãe bicho, instintiva que cuidava da cria como uma
leoa carinhosa, mas feroz se necessário, a companheira batalhadora que também
ajudava a pagar as contas da casa.
O que ele
não conseguia enxergar era o adicional.
A
sensibilidade, a criatividade, a inteligência, a cultura, o refinamento e os
valores baseados numa ética humanitária que ela tinha.
Quando ele
dizia que a amava, ela respondia: você não me ama, pois você não me conhece...
Pois bem...
tudo começou com um Jeep.
Ela sabia de
ouvir falar, de histórias que ouvia de amigas, aliás, corria uma lenda urbana,
que homens quando chegam à andropausa... (sim, ela existe sim, minha amiga) compram
um jipe porque tem mais chance de cantar mulheres...
Pois bem, o Jeep foi um alerta que resolveu ignorar.
Setembro:
Em setembro
ela decidiu que já era artista suficiente para abrir seu próprio atelier de
pintura. Tímida, buscando nele a segurança que lhe faltava, um dia disse, como
quem não quer nada: “acho que vou alugar uma casinha pra montar meu atelier”.
Ele ouviu o
“como quem não quer nada”.
“Pra que? O
quarto de empregada não está bom pra pintar?”
Nem mesmo as
três exposições já programadas pra Brasília, Belo Horizonte e uma nos Estados
Unidos, curada pelo Consulado Americano, vestiram-na de “artista plástica”. Se
não foram suficientes para validá-la, como seriam suficientes pra ele?
É que na
cabecinha dela, que misturava contos de fadas com Erich Fromm, um parceiro
amoroso dava asas, encorajava o objeto amado a voar. O dela, parece que prefiria-a
rasteirinha,
(c mintende?)